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Carros inteligentes: como você pode estar sendo espionado sem saber (e o que fazer para evitar)

Os carros modernos são computadores sobre rodas, e grandes corporações estão usando esses veículos para coletar detalhes íntimos sobre a sua vida e lucrar...

Carros inteligentes: como você pode estar sendo espionado sem saber (e o que fazer para evitar)
Carros inteligentes: como você pode estar sendo espionado sem saber (e o que fazer para evitar) (Foto: Reprodução)

Os carros modernos são computadores sobre rodas, e grandes corporações estão usando esses veículos para coletar detalhes íntimos sobre a sua vida e lucrar ainda mais com isso Getty Images via BBC Carros costumavam significar liberdade. Quando peguei as chaves do velho Toyota da minha família pela primeira vez, parecia um rito de passagem. Era um sinal de que eu já tinha idade suficiente para escapar do olhar vigilante dos meus pais e entrar em um mundo em que o tempo e as decisões pertenciam apenas a mim. As coisas mudaram. Os carros modernos são computadores sobre rodas, e grandes corporações estão usando esses veículos para coletar detalhes íntimos sobre a sua vida e lucrar ainda mais com isso. 🗒️Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 Se você acha que dirigir ainda representa um momento de privacidade e independência, talvez seja melhor pensar novamente. E tudo indica que a situação está prestes a piorar bastante. As próprias montadoras admitem isso, se você ler as suas políticas de privacidade. As informações coletadas podem incluir dados precisos sobre todos os lugares por onde você passa, quem está no carro com você, o que toca no rádio e até se você coloca o cinto de segurança, dirige acima da velocidade ou freia bruscamente. Veja os vídeos em alta no g1 Vídeos em alta no g1 Algumas empresas conseguem coletar informações ainda mais inesperadas, como peso, idade, raça e expressões faciais. Você cutuca o nariz? Alguns carros têm câmeras internas apontadas para o banco do motorista. E a maioria já sai de fábrica conectada à internet, que pode enviar esses dados enquanto você dirige sem perceber. Esse problema de privacidade também pode afetar o seu bolso. Entre os principais clientes desses dados estão as seguradoras, que usam essas informações para cobrar preços mais altos de alguns motoristas. Mas é impossível saber exatamente para onde seus dados estão indo. Algumas montadoras admitem vender essas informações, mas não são obrigadas a revelar quem as compra. Isso sem falar no desconforto que tudo isso pode causar. Segundo especialistas, a maioria dos consumidores nem sabe que isso acontece. "As pessoas ficariam chocadas com a quantidade de dados que seus carros coletam e transmitem para as montadoras ou aplicativos externos", afirma Darrell West, pesquisador sênior do Center for Technology Innovation, do Brookings Institute, em Washington D.C., nos Estados Unidos. "Basicamente, isso significa que a sua vida pode ser reconstruída quase segundo a segundo." Você já está se sentindo desconfortável? Uma lei federal prestes a entrar em vigor nos EUA vai ampliar ainda mais a quantidade de dados que os carros poderão coletar sobre seus motoristas. Em breve, montadoras americanas serão obrigadas a instalar câmeras biométricas infravermelhas e outros sistemas capazes de analisar linguagem corporal, rastrear movimentos dos olhos e monitorar outros aspectos do comportamento para identificar se o motorista está bêbado ou cansado demais para dirigir. Ao mesmo tempo, isso abrirá espaço para uma nova leva de dados sobre saúde e hábitos pessoais. Não existem regras que limitem o que as montadoras podem fazer com essas informações. É claro que também existem vantagens. Carros conectados à internet podem ser mais práticos. Os sensores instalados nesses veículos podem tornar a direção mais segura e confortável. Seguradoras também podem decidir cobrar menos de motoristas considerados prudentes ao volante. Mas, com as montadoras expandindo rapidamente seus impérios de dados, este é um momento importante para entender o que acontece nesse universo e como isso afeta você. A supervia dos dados Se o seu carro for relativamente novo, provavelmente já faz parte disso. A consultoria McKinsey estimou que 50% dos carros em circulação em 2021 tinham conexão com a internet e previu que esse número chegará a 95% até 2030. Se o seu carro está conectado, privacidade provavelmente já é uma questão que deveria preocupar você. As montadoras também conseguem monitorar usuários quando eles conectam o celular ao sistema multimídia do veículo ou utilizam determinados aplicativos voltados para dirigir. Alguns motoristas ainda aderem aos sistemas de telemetria das seguradoras, que acompanham o comportamento ao volante em troca de possíveis descontos. Uma análise feita em 2023 pela Mozilla, responsável pelo navegador de internet Firefox, examinou as políticas de privacidade de 25 marcas de automóveis. Nenhuma delas atendeu aos padrões de privacidade e segurança usados pela Mozilla em suas comparações. Segundo a Mozilla, carros são "a pior categoria de produto que já avaliamos em termos de privacidade". De acordo com o relatório, as montadoras se reservam o direito de coletar informações como nome, idade, raça, peso, dados financeiros, expressões faciais, tendências psicológicas e outros dados pessoais. A política de privacidade da Kia, por exemplo, sugere que a empresa pode até coletar informações sobre a "vida sexual" e a saúde geral dos motoristas. James Bell, porta-voz da Kia, afirmou que a empresa nunca coletou dados sobre a vida sexual ou a saúde de motoristas. Segundo Bell, essas categorias aparecem na política de privacidade apenas porque a companhia reproduz a definição de "dados sensíveis" adotada pelo Estado da Califórnia. Ele afirmou que as práticas de privacidade da Kia são transparentes e que a empresa só compartilha dados com seguradoras quando os motoristas autorizam. A companhia, no entanto, não explicou quais tipos de "dados sensíveis" efetivamente coleta. As informações coletadas podem incluir dados precisos sobre todos os lugares por onde você passa, quem está no carro com você, o que toca no rádio e até se você coloca o cinto de segurança, dirige acima da velocidade ou freia bruscamente Getty Images via BBC Talvez seja difícil imaginar concretamente como isso funciona, mas os carros atuais estão repletos de sensores: nos bancos, no painel, no motor, no volante, praticamente em toda parte. Muitos veículos, por exemplo, têm câmeras internas e externas. Se você faz alguma coisa dentro de um carro moderno, há grandes chances de existir algum mecanismo capaz de informar a empresa disso. A Mozilla descobriu que 19 montadoras afirmam, em suas políticas, que podem vender dados dos usuários, e isso já acontece na prática. Nos EUA, órgãos estaduais e federais adotaram medidas contra a General Motors (GM) por supostamente vender dados de localização de veículos sem consentimento dos motoristas. Senadores americanos também acusaram a Honda e a Hyundai de práticas semelhantes, e esses são apenas os casos que vieram a público. "Elas pegam todas as informações que coletam sobre você, e isso é muita coisa, e usam esses dados para tirar conclusões sobre quem você é, qual é o seu nível de inteligência, seu perfil psicológico e suas crenças políticas", afirma Jen Caltrider, analista de privacidade que liderou a pesquisa da Mozilla sobre automóveis. "Esse é o tipo de coisa em que as pessoas normalmente não pensam." Segundo Caltrider, praticamente não existem regras sobre quem pode comprar esses dados ou para quais finalidades eles podem ser usados. As informações podem servir para direcionar publicidade, influenciar decisões de contratação e até ser adquiridas por autoridades policiais quando não conseguem autorização judicial para acessar determinados dados. Depois que essas informações deixam o painel do carro, o motorista perde qualquer controle sobre para onde elas vão. E a situação pode piorar Isso vai além de as empresas espiarem sua vida privada. Por exemplo, a GM vendeu informações de motoristas para uma empresa chamada LexisNexis, especializada na compra e venda de dados de consumidores. Um motorista que obteve acesso ao material descobriu, segundo relatos, que a LexisNexis tinha 130 páginas de informações detalhando todas as viagens feitas por ele e pela esposa ao longo de seis meses. Ele contou ao jornal americano The New York Times que, depois de um aumento de 21% no valor do seguro, um corretor informou que os dados haviam influenciado o reajuste. A LexisNexis não respondeu ao pedido de entrevista da BBC. A Comissão Federal de Comércio dos EUA (FTC, na sigla em inglês) tomou medidas contra a GM, que agora está proibida de vender dados de veículos pelos próximos cinco anos. Depois disso, a GM poderá retomar a prática desde que obtenha o consentimento explícito dos motoristas e cumpra outras exigências. Enquanto isso, a LexisNexis e outras empresas continuam comercializando dados de veículos obtidos de outras montadoras e de aplicativos usados por motoristas. A GM também não respondeu aos pedidos de entrevista da BBC. Acordos entre seguradoras, montadoras e empresas especializadas na compra e venda de dados são comuns e, desde que essas práticas estejam descritas nas políticas de privacidade aceitas pelos usuários, tudo isso é perfeitamente legal. "As seguradoras vêm coletando enormes quantidades de dados dos consumidores, especialmente informações sobre hábitos de direção, e usando isso para tentar cobrar prêmios [preços] mais altos, negar cobertura ou classificar clientes em diferentes categorias", afirma Michael DeLong, pesquisador e ativista da Consumer Federation of America, organização sem fins lucrativos dos EUA voltada à defesa do consumidor. As montadoras afirmam que obtêm autorização antes de monitorar os motoristas. Na prática, isso normalmente significa aceitar formulários e políticas de privacidade ao configurar o sistema multimídia do veículo ou aplicativos conectados ao carro. Em alguns modelos, esses avisos aparecem toda vez que o motorista liga o veículo. Você leu esses termos? Provavelmente não. As montadoras também conseguem monitorar usuários quando eles conectam o celular ao sistema multimídia do veículo ou utilizam determinados aplicativos voltados para dirigir Getty Images via BBC Nos EUA, não existe uma lei federal abrangente sobre privacidade. As proteções adotadas por alguns Estados são fragmentadas e, segundo especialistas, insuficientes. A situação é um pouco melhor na Europa, incluindo o Reino Unido, onde existem proteções específicas para determinados tipos de dados sensíveis e consumidores têm alguns direitos, como acessar informações pessoais e solicitar sua exclusão. Ainda assim, o problema está longe de ser resolvido na Europa. "Os europeus continuam subordinados às políticas de privacidade", afirma Caltrider. "E é preciso confiar que as regras serão cumpridas e fiscalizadas, algo que nem sempre acontece, especialmente no setor automotivo." O problema não é novo, mas há motivos para acreditar que ele esteja se acelerando. Uma lei americana determina que, nos próximos anos, montadoras instalem em novos veículos de passeio tecnologias avançadas de prevenção à direção sob efeito de álcool ou fadiga. O objetivo é impedir que pessoas dirijam alcoolizadas, cansadas ou sem condições adequadas para conduzir, usando câmeras infravermelhas e outros sistemas de monitoramento. O problema, segundo Caltrider e outros especialistas, é que a lei não prevê nenhuma regra sobre o destino dos dados gerados por essas tecnologias. Um porta-voz da Administração Nacional de Segurança no Tráfego Rodoviário dos EUA (NHTSA, na sigla em inglês), órgão responsável por implementar a regra, afirmou que a agência "está comprometida em reduzir mortes causadas por motoristas sob efeito de álcool usando todas as ferramentas disponíveis" e que "continua avaliando temas críticos e complexos", como preocupações relacionadas à privacidade. A implementação da lei provavelmente será adiada porque a tecnologia ainda não está pronta, mas especialistas em privacidade já demonstram preocupação. "Precisamos impedir que motoristas alcoolizados dirijam, e seria ótimo se houvesse garantias de que esses dados não serão usados para outras finalidades, mas não é isso que está acontecendo", afirma Caltrider. "Muitos dos avanços de coleta de dados em carros são apresentados sob o argumento da segurança." Segundo Caltrider, isso pode entregar à indústria automotiva um enorme volume de informações que, na prática, equivalem a dados médicos — sem salvaguardas adequadas. Como acontece com muitos problemas ligados à privacidade, a questão dos dados automotivos não tem uma solução simples, mas há algumas medidas que os consumidores podem tomar. "Se você se preocupa com privacidade, não participe dos programas de telemetria das seguradoras", afirma DeLong. Segundo ele, os riscos são relevantes e os descontos prometidos não são garantidos. Uma análise feita pelo Estado de Maryland, nos EUA, mostrou que 31% dos motoristas tiveram redução no valor do seguro, enquanto 24% passaram a pagar mais. Para 45%, não houve mudança. No Reino Unido, na União Europeia e em alguns Estados americanos, consumidores podem solicitar uma cópia dos dados coletados pelas empresas e optar por impedir a venda ou o compartilhamento dessas informações. Também é possível exigir às empresas a exclusão dos dados. No Brasil, as regras sobre compartilhamento de dados pessoais estão definidas na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Algumas montadoras oferecem configurações de privacidade capazes de limitar o compartilhamento e a coleta de informações. Essas opções costumam estar disponíveis no sistema multimídia do veículo e nos aplicativos conectados ao carro. A revista americana Consumer Reports publicou um guia detalhado sobre o tema. Essas medidas podem ajudar, afirma Caltrider, mas ele argumenta que os consumidores não deveriam precisar fazer tanto esforço para impedir violações de privacidade. "Enquanto as regras não mudarem, enquanto os dados não forem realmente nossos e as empresas tiverem de pedir autorização para usá-los, acho que esse problema só vai piorar cada vez mais."