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Inútil, necessária ou ultrapassada? Sobrevivência da ONU vira tema central na Assembleia Geral

Secretário-geral da ONU faz discurso de despedida e admite crise na entidade Nem as grandes guerras abertas no mundo, nem a ameaça da inteligência artificial...

Inútil, necessária ou ultrapassada? Sobrevivência da ONU vira tema central na Assembleia Geral
Inútil, necessária ou ultrapassada? Sobrevivência da ONU vira tema central na Assembleia Geral (Foto: Reprodução)

Secretário-geral da ONU faz discurso de despedida e admite crise na entidade Nem as grandes guerras abertas no mundo, nem a ameaça da inteligência artificial ofuscaram uma discussão que dominou parte dos discursos Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Líderes mundiais usaram seus discursos na assembleia da ONU — encontro anual em que 193 países discursam sobre os temas mais relevantes na política internacional — para tratar da própria ONU. Boa parte deles criticou a organização, pediu mudanças ou ainda defendeu a existência das Nações Unidas, um pleito que não seria sequer considerado até poucos anos atrás. ➡️ A própria ONU já sabia que teria de passar parte da Assembleia Geral em defesa de sua própria sobrevivência. Com os discursos, no entanto, a comunidade internacional estabeleceu um consenso: o de que a ONU não funciona nos moldes atuais. Trata-se de um momento de ruptura, disse ao g1 a professora de relações internacionais da ESPM, Denilde Holzhacker. E também de um desafio que cairá nas mãos do próximo secretário-geral — o português António Guterres, à frente da organização há quase uma década, deixará o posto no fim deste ano. 🌏 Fundada em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, como um instrumento internacional regulador de conflitos e das relações entre os países, a Organização das Nações Unidas (ONU) é composta por 193 países — incluindo o Brasil. Há 80 anos, é a principal instituição multilateral do planeta. ➡️ Recentemente, no entanto, a ONU virou alvo de uma série de críticos, liderados pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que acusa a instituição de ser enviesada e ineficaz. Desde que Trump voltou à Casa Branca, em janeiro do ano passado, o governo dos EUA, que responde por mais de 20% do financiamento da ONU, vem cortando repasses e até programas inteiros da organização. Países como Israel, Rússia e os próprios EUA também têm ignorado tanto resoluções do Conselho de Segurança da ONU — para quem, em teoria, países têm de submeter pedidos para atacar outros territórios — quanto mandados de prisão internacional. “Tem um cenário que é de ruptura, de os Estados entenderem que não é mais capaz da ONU ser a organização que congrega esse processo. Mas o consenso é de que é preciso buscar uma reforma, mas também uma adaptação", explica a professora Denilde Holzhacker. Para sobreviver, a ONU aposta, de fato, nas reformas, defendidas pelo próprio António Guterres no discurso que abriu a assembleia na última terça-feira (22). "Nossas instituições e sistemas de governança global continuam a refletir as realidades de poder e os interesses de uma era amplamente ultrapassada. Esse é o desafio central diante de nós", afirmou Guterres no púlpito da ONU. O problema, para Holzhacker, é que as tentativas de reformar a ONU – um amplo complexo de mais de 15 agências, além do secretariado, de conselhos, braços administrativos e até tribunais – falharam até agora. “Todas as reformas propostas têm sido engavetadas ou não avançam”, afirmou. Caberá à próxima liderança – que deve ser definida nas próximas semanas – tornar a organização mais dinâmica em meio à crise financeira que ela enfrenta, em parte pelos cortes feitos pelo governo dos Estados Unidos, principal financiador da ONU. Enquanto isso, líderes usaram o palco da Assembleia Geral para propor soluções e fazer apelos por uma nova ONU – ou apenas criticar a organização. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, discursa durante a 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas na sede da ONU em Nova York, em 22 de setembro de 2026. ANGELA WEISS/AFP Críticas afiadas e pedidos de reforma da ONU Guterres admitiu uma ONU ultrapassada. O presidente argentino, Javier Milei, o mais afiado, falou de uma ONU “inútil” que se tornou “parasita”. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou seu discurso apontando uma baixa recorde na credibilidade da organização. O presidente francês, Emmanuel Macron, acusou a ONU de um papel “inativo” diante de mortes de civis na Faixa de Gaza. Mas também pediu que os países não abandonem a ONU. O mesmo apelo fez o presidente da Letônia, Edgars Rinkēvičs. “Nós dividimos o mesmo barco, e, por isso, precisamos de algo que nos mantenha unidos. O bom é que já temos isso, a ONU”, discursou o líder da Letônia, que divide fronteira com a Rússia e fica na ponta mais oriental da União Europeia. “O mundo não precisa de menos Nações Unidas. Só uma ONU que atue com mais diplomacia e mais capacidade de resolução de conflitos”, disse, também em discurso, o presidente panamenho, José Raúl Molino. Conselho de Segurança na mira A reforma mais urgente, segundo os apelos, é a do Conselho de Segurança, que delibera sobre guerras e conflitos e tem dois de seus membros permanentes – EUA e Rússia, ambos com poder de veto – atualmente em guerra. Guterres defendeu a inclusão de países da África como membros permanentes, e líderes de países africanos fizeram coro em peso à proposta. Mas para isso, disse o secretário-geral, é preciso que os cinco membros permanentes – EUA, China, Rússia, França e Inglaterra – estejam de acordo. E eles raramente concordam, o que explica a inação do Conselho de Segurança diante das guerras atuais. “Os próprios governos é que dão o mandato para a ONU, então a incapacidade de chegar a consensos é também em parte resultado da dificuldade dos próprios Estados de conseguirem se articular e cooperar”, afirmou a professora Denilde Holzhacker. Por isso, Holzhacker avalia que está nas mãos da próxima liderança da organização tentar equilibrar interesses de potências para que eles aceitem chegar a consensos que destravem reformas e criem uma nova ONU, mais enxuta e eficaz. “O próximo secretário, ou a próxima secretária, terá de buscar o equilíbrio entre as demandas dos Estados Unidos e da China, que ganha cada vez mais peso na ONU, inclusive financeiramente. Além do grupo do sul global, que tem um peso nessa estrutura”, afirma. “A grande discussão não é sobre a sobrevivência da ONU, mas sobre como ela vai ser repensada para reagir às mudanças constantes no sistema internacional. E isso, de fato, dependeria dos Estados”. Ameaças e críticas: os destaques da Assembleia Geral da ONU