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Por que brasileiros querem morar no Paraguai? País registra alta de 42% nos pedidos de residência e fama de ‘Suíça da América do Sul’

Crise financeira no Paraguai afeta milhares de brasileiros que vivem no país e que trabalham em regiões de fronteira Os brasileiros receberam quase sete em ca...

Por que brasileiros querem morar no Paraguai? País registra alta de 42% nos pedidos de residência e fama de ‘Suíça da América do Sul’
Por que brasileiros querem morar no Paraguai? País registra alta de 42% nos pedidos de residência e fama de ‘Suíça da América do Sul’ (Foto: Reprodução)

Crise financeira no Paraguai afeta milhares de brasileiros que vivem no país e que trabalham em regiões de fronteira Os brasileiros receberam quase sete em cada dez autorizações de residência concedidas a estrangeiros no Paraguai entre janeiro e outubro de 2026. Segundo dados divulgados pela Direção Nacional de Migrações do país, foram 34.794 autorizações destinadas a cidadãos brasileiros, o equivalente a 67% do total. Entre os fatores que ajudam a explicar o interesse dos brasileiros pelo país estão os baixos impostos, oportunidades de negócios e a procura por cursos de Medicina, características que renderam ao Paraguai a fama de "Suíça da América do Sul" entre empresários e investidores. ✅ Siga o g1 Foz do Iguaçu e região no WhatsApp O levantamento também mostra que os pedidos de residência de estrangeiros no Paraguai cresceram 42% em relação ao mesmo período de 2025. Foram 54.344 solicitações nos dez primeiros meses deste ano, número que já supera o total registrado ao longo de todo o ano passado. O crescimento ocorre em meio a uma crise bancária e política no Paraguai. Na terça-feira (3), o Banco Central do país suspendeu as operações do Ueno Bank, após identificar problemas na situação financeira da instituição, deixando clientes, incluindo brasileiros, sem acesso ao dinheiro depositado. A instabilidade também chegou ao cenário político. Nesta sexta-feira (6), foi retomada a sessão que analisa o processo de impeachment do presidente paraguaio, Santiago Peña. Peña chegou a anunciar que iria renunciar ao cargo, mas a Câmara dos Deputados optou pela abertura do processo que pode destituir o presidente. Ueno Bank no Paraguai Marcos Landim/RPC Para o pesquisador em relações entre Brasil e Paraguai e professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Aníbal Orué Pozzo, a instabilidade pode reduzir a chegada de novos moradores e investidores nos próximos anos. Segundo Pozzo, o crescimento da presença brasileira no país vizinho é resultado de uma política de atração de investimentos e estrangeiros desenvolvida ao longo de mais de uma década. A estratégia ganhou força durante o governo de Horacio Cartes, em 2013, e foi mantida pelas administrações seguintes. “Nos últimos 12 anos, o Paraguai estruturou uma política para atrair investimentos e pessoas do Brasil. O que vemos hoje é resultado desse processo”, explica. Fila com brasileiros vira a madrugada em Ciudad del Este, no Paraguai Fernando Otto/BBC O pesquisador também destaca a criação, em abril de 2026, de uma modalidade de residência voltada a investidores, chamada de Paraguay Investor Pass. Segundo ele, a medida prevê condições específicas para estrangeiros que pretendem investir no país, incluindo investimentos a partir de US$ 70 mil, associados a um plano de negócios e à geração de empregos. Além dos empresários, os estudantes brasileiros também representam uma parcela importante dos estrangeiros que buscam residência no Paraguai. Segundo dados da Direção Nacional de Migrações, o país concedeu 12.617 autorizações de residência a estudantes brasileiros em 2025, um aumento de 56% em relação a 2022, quando foram registradas 8.098. O levantamento mostra que esse número cresceu em todos os anos do período. Foram 9.627 autorizações em 2023 e 11.349 em 2024. Os números não representam necessariamente a quantidade de estudantes brasileiros que vivem atualmente no país, uma vez que contabilizam autorizações concedidas ao longo dos anos. Estudante de Medicina no Paraguai. Fonte: Assessoria. Segundo Pozzo, a procura por cursos de Medicina é um dos fatores que ajudam a explicar a presença brasileira no país vizinho. Ele afirma que esse movimento também envolve familiares que acompanham os estudantes durante a formação. “Os estudantes também vêm acompanhados de familiares, como pais e irmãos, o que contribui para aumentar a presença de brasileiros no Paraguai. Parte desse fluxo migratório está ligada à procura por cursos de Medicina”, explica Leia também: 'O que resta é esperar': Brasileira precisou renegociar aluguel após ter valores bloqueados por quebra do Ueno Bank no Paraguai 'Recebemos e acordamos no outro dia sem nada do dinheiro', diz mulher que teve valores bloqueados após quebra do Ueno Bank no Paraguai Paraguai: Senado rejeita pedido de Santiago Peña para adiar julgamento de impeachment e retoma processo Crise pode reduzir chegada de brasileiros Agência do Ueno Bank fechada em Pedro Juan Caballero. Nádia Nicolau/TV Morena Apesar do crescimento registrado nos últimos anos, Pozzo avalia que a crise política e bancária pode afetar a confiança de estrangeiros que pretendem se estabelecer no Paraguai. O pesquisador afirma que a facilidade para abrir contas e movimentar dinheiro no Ueno Bank ajudou a atrair brasileiros para a instituição. Com a suspensão das operações, parte desses investidores também passou a enfrentar dificuldades para acessar seus recursos. "Evidentemente, a crise pode frear o aumento da migração de brasileiros para o Paraguai, sem dúvida. Se não existe uma estabilidade política, social ou econômica, obviamente as pessoas não vão migrar para um país que tem essa situação", afirma. O pesquisador ressalta, porém, que os próximos movimentos migratórios dependerão da forma como o país enfrentará a crise. “Então, sem nenhuma dúvida, vamos ter que observar de que forma o Paraguai vai se estabilizar para ver se esse processo vai continuar atraindo os brasileiros para o Paraguai.” Brasileiros afetados pela crise bancária 'Acordamos sem nada do dinheiro', diz mulher que teve valores bloqueados no Ueno Bank A crise envolvendo o Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do Paraguai, também afetou brasileiros que vivem no país e utilizavam a instituição para movimentar dinheiro e pagar despesas do dia a dia. Entre eles está a empreendedora Jhenifer Vogado, filha de brasileiros e moradora de Santa Rosa del Monday, cidade paraguaia a cerca de 57 quilômetros de Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná. Ela precisou recorrer à ajuda de familiares para comprar medicamentos para o filho de 3 anos, que está doente, depois de ficar sem acesso ao dinheiro da conta bancária. Jhenifer e o marido utilizavam o Ueno como banco principal havia cerca de quatro anos. "A gente dependia dele para tudo: para pagar mercado, para pagar internet, para pagar a luz, para fazer transferência, para tudo. A gente dormiu com o salário que recebemos no começo do mês e acordamos no outro dia sem nada do dinheiro, nada", detalha. Jhenifer afirma que soube da situação pelas redes sociais e que não recebeu comunicação oficial do banco naquele momento. "Eu não tinha a cabeça para nada. Meu emocional estava abaladíssimo. Foi um sentimento de tristeza, porque, além de nós estarmos precisando, tem mais famílias que estão sem dinheiro. Por sorte, a gente tem alguém que possa nos emprestar, mas e as pessoas que não têm? Que dependiam desse salário do mês? Como que essas pessoas ficam sem comida, sem acesso a remédio?", lamentou. Outra brasileira afetada é Camila Brito, natural de Foz do Iguaçu e estudante de Medicina em Assunção, capital paraguaia. Ela precisou renegociar o aluguel e outras contas depois que teve valores e investimentos bloqueados. "É uma situação muito complicada acordar e não ter acesso nenhum ao seu próprio dinheiro, ainda mais no dia seguinte ao tradicional dia de pagamento dos salários. Isso significa que as pessoas, inclusive nós, havíamos acabado de receber e não tínhamos como cumprir as nossas obrigações financeiras. No geral, as pessoas estão sendo solidárias e permitindo que as despesas sejam renegociadas. O que resta agora é esperar que os valores sejam desbloqueados o mais rápido possível", afirma. Não há, nas informações disponíveis, um levantamento oficial sobre quantos brasileiros foram afetados pela suspensão das operações do Ueno Bank. Vídeos mais assistidos do g1 Paraná: Leia mais notícias no g1 Paraná