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Soroterapia: o que a ciência diz sobre os 'soros da beleza' que prometem mais energia e imunidade

Virginia e Vini Jr. fazem soroterapia nos EUA após eliminação do Brasil na Copa do Mundo Mais energia. Imunidade reforçada. Pele renovada, corpo recuperado,...

Soroterapia: o que a ciência diz sobre os 'soros da beleza' que prometem mais energia e imunidade
Soroterapia: o que a ciência diz sobre os 'soros da beleza' que prometem mais energia e imunidade (Foto: Reprodução)

Virginia e Vini Jr. fazem soroterapia nos EUA após eliminação do Brasil na Copa do Mundo Mais energia. Imunidade reforçada. Pele renovada, corpo recuperado, envelhecimento adiado. A cada nova clínica de estética que adota a soroterapia, a lista de promessas se alonga —e todas cabem em uma única bolsa de soro pendurada ao lado da poltrona. O apelo é evidente para quem vive exausto e teme o próprio relógio biológico. A ciência, no entanto, responde com menos entusiasmo: em pessoas saudáveis, quase nenhuma dessas promessas se sustenta. É o que afirmam as principais sociedades médicas do país e os especialistas ouvidos pelo g1. O tratamento existe, ocupa lugar consolidado na medicina e ampara quem de fato precisa dele —mas não é isso que se oferece no balcão da estética. O que é soroterapia Soroterapia é o nome dado à infusão de líquidos, medicamentos, vitaminas, minerais ou outros nutrientes diretamente na corrente sanguínea. A via intravenosa cumpre uma função específica: driblar o sistema digestivo. Quando o intestino não dá conta de absorver um nutriente, ou quando o corpo precisa repô-lo às pressas, a veia se torna o caminho mais curto. Fora dessas situações, é um atalho sem destino. Soroterapia não tem benefícios comprovados para pessoas saudáveis e pode trazer riscos, alerta Anvisa. Adobe Stock Quando o tratamento se justifica Na medicina, a terapia intravenosa tem indicações estreitas e bem mapeadas. Ela entra em cena diante de doenças que comprometem a absorção de nutrientes, como a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, ou depois de cirurgias que retiram parte do intestino. Também se aplica a quadros graves de desidratação e a deficiências que já foram confirmadas por exame. O reumatologista Adérito Cruz, conselheiro do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, resume o critério: quando o organismo perde de fato a capacidade de absorver alimentos ou nutrientes, a reposição pela veia se justifica. Longe disso, não há razão para furar a pele. "Não faz sentido injetar na veia aquilo que o corpo absorveria sozinho por via oral. A indicação só existe quando a incapacidade de absorção está comprovada", afirma. A ilusão de que mais é sempre melhor Por trás dos soros da beleza mora a ideia de que vitamina, quanto mais, melhor. A lógica não resiste ao primeiro exame. Nutrientes essenciais em excesso deixam de ser inofensivos —doses altas podem sobrecarregar fígado e rins, desencadear alterações neurológicas e provocar náuseas e vômitos, segundo os especialistas. O próprio ato de injetar carrega riscos que independem do conteúdo da bolsa. Cada punção abre uma porta para infecções, inflamação da veia, reações alérgicas e complicações ligadas ao manuseio dos produtos. Endocrinologista do Hospital Israelita Albert Einstein e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Clayton Macedo acrescenta uma ressalva sobre o bem-estar que muitos pacientes juram sentir depois da aplicação. A sensação pode não vir das vitaminas, mas de um efeito placebo —ou de outras substâncias diluídas no soro, de um corticoide a um estimulante, que produzem alívio momentâneo sem que o paciente saiba exatamente o que recebeu. Para o médico, o balanço é desfavorável. "O que a ciência mostra é que o risco tende a superar o benefício. Qualquer medicamento precisa ter indicação clínica, prescrição adequada e administração segura", diz. E lembra que, havendo real necessidade de repor um nutriente, a medicina quase sempre dispõe de um caminho mais simples e menos arriscado que a veia. Virginia Fonseca fez soroterapia nos Estados Unidos Reprodução/Instagram de HL Med Spa e Virginia Fonseca Um consenso entre as entidades A recomendação dos especialistas ecoa nas instituições que regulam a área. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) declarou, em nota recente, não existir evidência de que a soroterapia seja segura ou eficaz para melhorar a saúde, prevenir doenças ou elevar o bem-estar de pessoas saudáveis. O uso, reforça a agência, deve ficar restrito a situações clínicas definidas. A Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) é igualmente direta: a soroterapia da beleza não pertence ao rol de procedimentos da especialidade. Em nota conjunta, a SBEM, a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) sublinham que produtos injetáveis só devem ser prescritos com base em evidência científica e dentro das normas sanitárias e éticas. O Conselho Federal de Biomedicina foi na mesma direção, ao esclarecer, em nota técnica, que o procedimento escapa às competências do biomédico. Como enxergar a oferta com olhos críticos Diante de um serviço que promete muitos benefícios de uma só vez e não exibe estudo clínico que os sustente, a orientação dos especialistas é uma só: desconfiar. Antes de aceitar qualquer infusão, sugerem, vale confirmar se há indicação médica individual, checar se os produtos têm registro sanitário e buscar um profissional habilitado para julgar se o tratamento é mesmo necessário. Cruz observa que a internet multiplicou o alcance dessas ofertas, sem substituir aquilo que as sustentaria de verdade —a evidência. "O paciente precisa desconfiar de qualquer solução que prometa muitos benefícios ao mesmo tempo. Antes de topar, convém perguntar se existe comprovação científica de que aquilo funciona e se há real necessidade clínica", diz. Enquanto a pesquisa segue investigando o papel de vitaminas e suplementos em diferentes doenças, o consenso não muda quando o assunto é gente saudável: alimentação equilibrada, atividade física, sono suficiente e acompanhamento médico quando preciso continuam sendo —de longe— as estratégias com melhor resultado comprovado para preservar a saúde. *Sob supervisão de Ardilhes Moreira.